sexta-feira, 6 de março de 2015

Os sabores da Geografia



Os sabores da Geografia
Não existe cultura, sociedade ou região que não tenha o seu cardápio ou culinária específica. Muitas vezes ela passa a ser também um fator de reconhecimento de determinada localidade. Saiba mais sobre as várias culinárias espalhadas pelo espaço, seja no planeta, seja no País.

Os pratos e alimentos são tão importantes para as cidades quanto seus artesanatos e costumes. Associamos o acarajé a Salvador e o tutu de feijão a Minas Gerais, por exemplo. Como diria o folclorista Luís Câmara Cascudo, no livro "História da Alimentação no Brasil": "Toda a existência humana decorre do binômio estômago e sexo. A fome e o amor governam o mundo, afirmava Schiller." Para os gregos, os alimentos eram tão importantes que seriam capazes de cessar o amor. Não foi à toa que uma das frases célebres de Hipócrates, "pai" da medicina era: "Seja a tua comida o teu remédio."
 A alvorada da história alimentar
 As culturas antigas já conheciam o poder dos alimentos tanto na saúde como em suas tradições. Os egípcios, por exemplo, descobriram nas frutas e ervas a arte de curar seus doentes, embalsamar os cadáveres, armazenar e conservar os corpos de seus mortos. Mas esse hábito não era feito somente entre os egípcios, outras culturas costumavam usá-los como oferendas.
Os alimentos não eram só valorizados por esse aspecto. Eram cuidadosamente tratados e manipulados, como no caso da tribo Baganda, de Uganda, na África Oriental. Nessa comunidade, o gado era a principal riqueza, e o sangue da vaca era o alimento favorito. Na propriedade do rei dessa tribo, havia uma área cercada destinada aos tambores sagrados, nos quais eram feitas as oferendas de cerveja e leite.
Mas é nas festas e rituais que as sociedades gostam de se fartar com suas culinárias típicas. Na Polinésia, durante o noivado, o pai do noivo oferece às suas divindades dez cestos de peixe seco, dez mil cocos maduros e seis mil verdes, recebendo em troca dois bolos de quatro pés quadrados por seis polegadas de espessura. No Taiti, são oferecidas aos deuses frutas amarradas em gamelas e pérolas.
Entre os gregos, o alho era muito usado na culinária diária, além das carnes de carneiro, cabra e vaca. Eles acrescentavam feijão, rabanete, pepino, alface, queijo, mel, figo, romã, tâmara, uvas e peixe. Cada cidade da Grécia Antiga tinha um deus patrono e anualmente o povo realizava um festival em honra ao deus, oferecendo- lhe alimentos típicos. Em Atenas, por exemplo, o festival era em agosto.
O alimento principal era a carne de boi assada, seguida de costeletas de enguias, lulas, pés de porco cozido, costeletas de porco, passarinho selvagem, queijo, mel, pão embebido em vinho, leite de cabra, azeitonas, figo e nozes. Já os celtas comiam muita carne em suas festas, principalmente de boi, carneiro, porco, javali e veado, acompanhada de leite, nozes, pão de trigo, mingau de aveia, mel e queijo.
Oferendas pelo mundo
Na cultura mexicana, é comum existirem festas tradicionais e religiosas com muita comida, dança e música. Uma das mais famosas é a Fiesta de los Muertos. Para esta, são fabricados pão doce e guloseimas com formas alusivas à morte. Nestes dias, todos se preparam para celebrar e recordar, com alegria, seus entes queridos falecidos. Já nos campos, as pessoas festejam a fertilidade.
Na Rússia, no carnaval (maslenitsa ), as pessoas comem muitas panquecas com manteiga derretida (blinis), peixes e ovos - jamais carne por preceder a Quaresma.
É como se esta fosse a última refeição, então as pessoas comem muito. São oferecidas panquecas aos mortos para que eles fertilizem os grãos. Na China, é hábito combinar cores, aromas, sabores, texturas dos legumes, verduras e carnes na elaboração dos pratos. Seletivos, simbólicos e supersticiosos, os chineses não comem um alimento que não se integre à filosofia taoísta. Eles consideram a culinária uma atividade essencial na vida, não só pela sobrevivência física, espiritual, mas como um bom motivo para reunir a família.
Nos finais de ano, os moradores das aldeias do sul da China colocam bolos e doces feitos de arroz glutinoso com coloração vermelha de temperos no formato de tartaruga em vários tamanhos. No primeiro dia, as pessoas entram nesses locais pegam o doce de tartaruga e fazem um pedido. Se for concedido, no outro ano ela deve colocar um doce de tartaruga de arroz maior no mesmo lugar. O formato de tartaruga do doce é associado ao universo.
Os japoneses têm a mesma filosofia dos chineses. Muito supersticiosos, durante os três primeiros dias do ano, a mulher japonesa descansa. Mas antes ela deixa pronta a comida da ceia para receber os amigos e familiares. Eles apreciam o Mamé (feijão preto grande japonês), o Kazunoko (ovos de peixes), o Tazukuri (peixes pequenos), pois estes trazem produtividade e sorte na colheita, e o Moti (bolinhos de arroz japonês).
Os árabes gostam de comemorar as datas comendo doces e frutas típicas. Eles costumam fazer muitos doces, entre eles o Burmc (doce árabe feito de macarrão, mel, frutas secas e nozes picadas). Os doces árabes costumam ser muito adocicados, e isso não acontece à toa, mas simboliza a fartura, resistência e esperança de um ano mais doce.
Do lado europeu, os franceses, famosos pela sua culinária requintada, recebem o novo ano comendo o Bûche de Noël, um tradicional rocambole criado em 1870 por doceiros da região de Poitou-Charentes. Esse doce é feito com farinha, ovos, açúcar, enrolado em folhas finíssimas e recheado com purê de castanhas portuguesas.

Brasil: uma mistura de culturas e ingredientes
Descobrir a alimentação e a culinária brasileira não é tarefa simples. "Desde o século XV, com a chegada dos portugueses, africanos e outros europeus, seria inevitável que essas multirraças se adaptassem também com a culinária indígena".



A nossa cozinha é um legado da miscigenação. Ela é fruto das misturas herdadas dos colonos portugueses que nos deixaram pratos como galinha de cabidela, bacalhoada, salgados e doces. Dos indígenas pegamos o conhecimento sobre plantas silvestres, peixes, mandioca. E do negro escravo africano recebemos dendê, leite de coco, temperos fortes, vatapás, acarajés, xinxim de galinhas e outros.

Assim, a nossa cozinha é um legado da miscigenação. Ela é fruto das misturas herdadas dos colonos portugueses que nos deixaram pratos como galinha de cabidela, bacalhoada, salgados e doces. Dos indígenas, pegamos o conhecimento sobre plantas silvestres, peixes, mandioca.
O período de tempo de 365 dias o qual chamamos ano, para os índios brasileiros era marcado por duas estações: da estiagem e das chuvas. Na passagem entre uma e outra, os índios comemoravam se alimentando com um banquete feito de mandioca, milho, feijão, batata doce, batatinha, abóbora, cará, amendoim, pimenta. A natureza ainda dava coco, palmito, amêndoas, frutas tropicais. Da caça comiam antas, veados, porcos selvagens, onça, pacas, quatis, macacos, tamanduás, tatus, capivaras, aves, lagartos, serpentes. Ainda tinham mel, peixes, tartarugas, sapos, caramujos. O pai servia os familiares usando os próprios dedos, comiam em silêncio, mastigavam bastante e com vagar. Para a sociedade indígena Yanomami, por exemplo, é comum comer banana e cinzas para equilibrar o espírito e o corpo.



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